19/11/2009 15:11

5ª Coluna – O ressurgimento das equipas nacionais

A 5ª coluna desta semana vai ser fértil em eventos automobilísticos, pois este defeso está a mostrar-se como sendo muito mais movimentado do que se pensa, em comparação com o ano passado. Para além disso, posso dar-vos uma novidade: esta semana estreei-me nas lides radiofónicas como comentador no programa Supermotores FM, da rádio online Voz Desportiva (www.vozdesportiva.pt) dirigida pelo Ricardo Batista, onde já colaborei no site Supermotores.pt. Confesso que é um excelente complemento a esta rubrica no site scn.pt. Como é obvio, aquilo que falo às terças-feiras na rádio não se repete na quinta-feira, dado que as novidades continuam a aparecer e como acontece esta semana, apareceram novos dados que necessitam de ser analisados e comentados.

Formula 1, parte 1 – Adeus Brawn GP, olá Mercedes-Benz GP

Em absoluto contra ciclo com o que se passa nos construtores, a Mercedes Benz anunciou esta segunda feira que adquirira 75,1 por cento da Brawn GP, mudando de nome para Mercedes, terminando assim uma associação de 15 anos com a McLaren, uma das mais longas da história da Formula 1. Foi uma separação amigável e sem ondas, apesar das altíssimas clausulas de rescisão existentes entre as duas partes. A Mercedes, que detinha 40 por cento da McLaren, vai vender a sua parte até 2011 pela melhor oferta, mas em compensação, fornecerá motores (presumivelmente de graça) até 2015. Quanto à Mercedes, que ficará com as instalações da Brackley e ganha um excelente técnico, que é Ross Brawn, forma uma equipa que provavelmente vai ser totalmente alemã, com um piloto mais ou menos confirmado, Nico Rosberg, com olho noutro piloto teutónico, Nick Heidfeld. O interessante é saber que, caso isto seja confirmado, a marca de Estugarda adquire uma dupla que nunca venceu qualquer Grande Prémio…

Quanto à Brawn GP, é pena ver desaparecer esta equipa (pelo menos no nome), mas é o final de uma excelente história que começou há quase 12 meses, no dia em que a Honda decidiu retirar-se subitamente da Formula 1, deixando Ross Brawn, Nick Fry, Jenson Button e Rubens Barrichello na corda bamba. Ao longo da pré-temporada, muitos fizeram os “obituários” aos pilotos, pois todos estavam convencidos que a estrutura se extinguia, mas no final. Brawn e Fry decidiram fazer um “management buyout” onde rebatizaram a estrutura com o nome do Ross Brawn, a Honda pagava parte das despesas e mantinha Jenson Button e Rubens Barrichello, em detrimento de Bruno Senna, por exemplo. Mas não se sabia que Brawn tinha soltado um belo coelho na cartola chamado Brawn BGP 001, que acabou por dar os títulos de pilotos e construtores à equipa, oito vitórias e ressuscitou as carreiras de Button e Barrichello. Foi uma estrela cadente, a Brawn GP, mas foi uma das mais brilhantes da história da Formula 1.

Quanto ao facto desta compra estar em contra ciclo às saídas dos construtores, como a BMW e a Toyota, isto dá-nos a ideia de que a Mercedes não é um construtor qualquer. Estão na competição automóvel desde os seus primórdios. Foram eles que venceram o Grand Prix do ACF em 1914, três semanas antes de rebentar a I Guerra Mundial, foram eles que, em 1934, tiveram a ideia de raspar a tinta branca (cor nacional da Alemanha) que os envolvia antes da sua primeira corrida oficial, para ficar no peso exigido pela Comissão Desportiva Internacional (antecessora da FIA), e foi aí que nasceram as “Flechas de Prata”. Foram eles que nos deram personagens como Hans Stuck e Rudolf Caracciola, e notoriamente o arquétipo do chefe de equipa: Alfred Neubauer. E nos anos 50, depois da II Grande Guerra, regressaram em força com o modelo W195, conduzido por Juan Manuel Fangio e Stirling Moss, e com Neubauer nas boxes, dando um modelo inesquecível e dois títulos mundiais de pilotos (o de construtores não existia, só foi criado em 1958). Só abandonaram a competição após o acidente mortal de Pierre Levegh nas 24 horas de Le Mans de 1955, onde morreram 82 pessoas.

Em suma, a Mercedes não é um construtor qualquer. Também eles respiram competição, e provavelmente serão os únicos a aproximarem-se do arquétipo da Ferrari. E tem outro triunfo: Ross Brawn pode ser outro Alfred Neubauer, logo, pode-lhes dar mais títulos em nome próprio, mesmo arriscando a ter um “calcanhar de Aquiles” chamado “piloto de ponta”…

Formula 1, parte 2 – Seja bem-vindo Button, aproveita as férias Kimi!

Quase 24 horas depois da confirmação da compra da Brawn GP pela Mercedes, o “puzzle” começou a se formar. O jornal inglês The Guardian noticiou que Jenson Button ia para a McLaren, a troco de seis milhões de libras por ano (6,7 milhões de euros) e três temporadas, troca essa que foi confirmada na manhã de ontem. Ao mesmo tempo, o jornalista finlandês Heiki Kulta publicava uma entrevista feita ao empresário do finlandês, Steve Robertson, onde dizia que Kimi Raikonnen iria aproveitar o ano de 2010 para ficar afastado de um volante de Formula 1 e gozar os milhões que recebeu.

Eram desfechos esperados, por vários motivos, alguns dos quais expliquei ao longo das últimas colunas. O salário que a Ferrari lhe dava caso não arranjasse um volante em 2010, cerca de 17 milhões de euros, o facto de Raikonnen e Robertson só quererem negociar com a McLaren e mais ninguém, para além da diferença salarial entre ambas as partes. Em contraste, Button, que recebia na Brawn GP cerca de 3 milhões de euros por ano, valor esse que tinha acordado baixar no inicio do ano para ajudar na equipa, com o título, queria uma melhoria significativa na conta bancária para continuar a guiar pela agora Mercedes. Como Brawn esta reticente em concordar, e sabendo do impasse nas negociações entre McLaren e Raikonnen (ou o contrário…) esta parte teve desfecho rápido: na sexta-feira, Button e o seu empresário foram a Woking, onde foram recebidos por Martin Withmarsh, e na terça-feira, o rumor do acordo surgiu, o que faz pensar que o acordo foi rápido e alcançado durante o fim-de-semana.

Claro, muitos afirmam que este foi um mau acordo para Button pois o seu único trunfo é ele ter o numero 1 na carenagem e pouco mais, numa equipa onde todos os olhos estão virados para Lewis Hamilton, e o companheiro de equipa é pouco mais do que um actor secundário. Jackie Stewart, Martin Brundle e Stirling Moss foram alguns dos que criticaram esta mudança, pois acham que era a pior altura para fazer isso, mas eis os factos: pela primeira vez desde 1989, a McLaren vai ter dois campeões do mundo no seu seio, e pela primeira vez em muito tempo, as duas equipas mais significativas do pelotão, McLaren e Ferrari, terão quatro dos melhores pilotos do pelotão.

Pelotão esse que não terá Kimi Raikonnen em 2010, como todos sabem. É uma pena, porque toda a gente no meio sabe que ele não é o arquétipo actual de piloto. Não gosta das acções de relações públicas, tem fama de bebedor, tem fama de se isolar dos outros (fora do seu circulo intimo, não fala com ninguém) e tem fama também de não importar com o que se passa à volta. A cena dele comer um gelado no chuvoso GP da Malásia, no momento em que a prova foi interrompida, irá ficar gravada na memória de muitos por muito tempo. Numa era em que tudo está programado por RP’s e assessores de imprensa, ele destoava na paisagem.

Agora, vai provavelmente gozar uma temporada de ralies e quem sabe, dá um salto na Le Mans Series, para depois tentar o regresso em 2011. Fala-se na Red Bull, mas nunca se sabe… esperemos que goze muito estas férias, enquanto que muitos dos seus fãs irão sentar a sua falta no “paddock” dos Grandes Prémios.

Formula 1, parte 3 – Glock na Manor, Renault à venda?

Entretanto, as novas equipas continuam a elaborar os seus chassis de modo a ficarem preparados para as suas temporadas de estreia. E na segunda-feira, a Manor, que se vai chamar Virgin Grand Prix em 2010, anunciou a contratação do alemão Timo Glock por duas temporadas.

A contratação de Glock, que era apontado como uma boa possibilidade de ir para a Renault, ao lado do polaco Robert Kubica, pode significar uma de duas coisas, nos lados da Renault: que a equipa pode estar de malas aviadas e sair da Formula 1, ou então já tem outro piloto contratado. Várias hipóteses podem ser levantadas, mas na quarta-feira surgiu a notícia de que a marca francesa colocou à venda cerca de 40 por cento da sua firma, e que o melhor interessado seria uma firma russa de telecomunicações. Caso isso seja verdade, e caso o negócio se concretize, isso significa que não só a Renault correrá em 2010 (algo que já foi dito por algums elementos da equipa, mas não pelo “big boss Ghosn) como também adquire um bom patrocinador e coloque Vitaly Petrov como segundo piloto.

Eventualmente, o facto do anuncio sobre qualquer decisão referente ao futuro da marca do losango ter sido adiado para Dezembro pode encaixar nessa hipótese, mas não passa disso. Contudo, existe credibilidade na coisa.

Mas voltando a Glock, com este anúncio, falta saber quem o vai secundar. A grande probabilidade será um piloto estreante, e fala-se muito de Lucas di Grassi. Quanto a Álvaro Parente, que tanto se falou nas últimas semanas, pelas nossas bandas, aparentemente as hipóteses podem ter diminuído, pois pouco se sabe sobre a carteira de patrocínios que ele possa ter, pois ele deverá arranjar à volta de sete milhões de euros, se quiser ter um mínimo de hipóteses, ou então procura outros lugares. Não na Lotus malaia, pois provavelmente a equipa contratou Jarno Trulli, enquanto que a Toyota pressiona a equipa para que fique com um dos seus pilotos, Kamui Koboyashi ou Kazuki Nakajima, enquanto que na Campos fala-se que Pastor Maldonado pode ser o segundo piloto da marca. Resta a Sauber e a USF1, mas quer um, quer outro, existem muito mais dúvidas do que certezas.

GP2, World Series ou Formula 3: qual é o melhor para António Félix da Costa?

Acabada a temporada da Formula Renault 2.0 para António Félix da Costa, o piloto de 18 anos que cumpriu o seu segundo ano em monolugares, passou as últimas semanas a testar alguns monolugares de categorias mais potentes para ver como se safava. E em todas elas impressionou, desde conseguir o melhor tempo numa das sessões da World Series by Renault (WSR) em Alcainz, Espanha, até ao teste que fez na semana passada em Paul Ricard ao volante do carro da Ocean Racing Technology, da GP2.

Neste último teste, Félix da Costa impressionou ao rodar constantemente (137 voltas) e fazer por duas vezes o quinto melhor tempo do dia, e isto tinha como objectivo ver a sua capacidade de adaptação a uma máquina com mãos 400 cavalos do que um mero Formula Renault 2.0, que tem como base um motor Megane de 2 litros, com cerca de 250 cavalos. E para tornar as coisas mais impressionantes, não andou muito longe do topo da tabela de tempos, menos de um segundo. Impressionante, para quem chegou agora à idade legal para tirar a carta de condução…

Feitos os testes, o que lhe resta? Existem três boas hipóteses. A primeira uma que discuti na terça-feira com o Ricardo: que ele poderá fazer um fim-de-semana na GP2 Asia a bordo do monolugar da Ocean, a equipa de Tiago Monteiro, e se forem ver os patrocínios na carenagem do carro da Ocean, repararão que alguns são provenientes do próprio Félix da Costa. Não implica necessariamente que vá fazer a GP2 Main Series, pois é arriscado para ele fazer toda uma temporada, com tão pouca experiência. A segunda hipótese poderá ser a World Series by Renault, menos potente (mas não tanto), e o resultado dos testes em Alcainz fez despertar o interesse da equipa P1 Motorsport, actualmente uma das melhores do pelotão. E caso vença a série (não digo que seja em 2010) tem garantido um teste com a Renault F1.

A terceira hipótese é a formula 3 Euroseries, na já familiar Motorpark Academy, sua equipa na Formula Renault. Parece ser a mais lógica, ainda mais quando se sabe agora que vai ser apoiado oficialmente pela Volkswagen. Não se tem falado muito nessa hipótese nestes dias, mas no final é o próprio piloto é que decidirá, e verá qual será o tamanho da sua carteira para ponderar bem o seu passo seguinte. Mas pelo que já mostrou, tem muito talento!

Bom, por hoje é tudo. Na semana que vêm falarei de estas e outras questões, não só aqui, como também no meu novo espaço de rádio. Até lá!

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